segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Médico Real - IV

A Sorte é uma dama volúvel e imprevisível. Ao invocá-la, deve-se guardar o devido respeito para não aborrecê-la e acabar sofrendo consequências desafortunadas. Sendo sua natureza tão semelhante à do mar, não é surpresa que os piratas sejam mestres desse cortejo, verdadeiros cavalheiros da sorte.

Você tem que tratá-la bem, entende? Não só quando precisa de um favor. Tem que tratá-la como a mulher do seu porto mais importante!

Phill era um desses que se dizia agraciado pessoalmente pela Sorte, e realmente sua vida relativamente longa estampava-se em suas rugas e cicatrizes. Cego do olho esquerdo e com o quadril desconjuntado, agora adicionava uma amputação à coleção de sequelas. Mas não tirava o sorriso dos dentes amarelos e falhos, pois jamais faria pouco caso da graça de sua Dama.

Pois a Sorte trouxe um cirurgião endemoniado pro nosso navio! Não um desses carniceiros sem jeito, mas um que sabe cortar a carne e costurar o remendo.

Ele coçava a barba e elogiava a operação bem-sucedida, soltando um riso rouco e batendo na coxa direita, um pouco acima da prótese de madeira que substituía o restante da perna. O fedor de suas roupas surradas fazia jus à alcunha do “Gato Afogado”.

A cena se repete em um canto escuro das docas de Londres, três anos após seu enforcamento. Mas sua palidez mórbida denuncia que a conclusão será diferente.

Você sabe, velho Cirurgião, que eu não maldigo minha sorte. Eu não reclamo de como terminei. Eu sabia o que você faria. Não foi nenhuma surpresa.

Um tiro, dois, três. Certeiros e precisos, mas Phill não caiu.

Mas Cirurgião, “não foi surpresa” é bem diferente de “não guardei rancor.”

Mais três tiros acompanhados de três passos para trás, sem tirar os olhos do marinheiro perneta. Repentinamente, um estalo de madeira sob os pés, e Charles sentiu-se naufragar como um navio abatido. Em algum canto de sua mente, estranhou a profundidade – e se perguntou porque vestira justamente sua capa mais grossa e pesada.

E os outros estão ainda mais zangados do que eu, pois lhe atribuem a sorte que tiveram.

Ecoando essa sentença profética, o mundo de Charles escureceu.

4 comentários:

  1. O pirata da perna de pau é um fantasma!?O médico morreu!?E há mais "os outros"...O.O...Oh my God filha...quero maisss....hehehe o/o/

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  2. Saudações


    Parece-me que novidades ocorrerão nesta história...
    Anseio em ver as ações do Charles no próximo capítulo, pois a história parece caminhar para outros rumos...


    Até mais, nobre.

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  3. Night Dragon Ninja20 de agosto de 2013 00:46

    Acho que já sofri de "quadril desconjuntado". Duas vezes. Uma quando ergui um botijão de gás e fiquei uma semana com dor e outra quando tava jogando Diablo II por horas e quando me levantei, não conseguia andar de forma reta devido ao quadril desconjuntado.
    Mas esse médico devia trabalhar no SUS. Melhor que muitos médicos que tem por aí. Sério.
    Mas não me diga que ele... depois de todos esses tiros...

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  4. Esta ficando cada vez melhor. O suspense, a ambientação e as metáforas estão ótimas, porém o que mais me chamou a atenção foram as frases que representam os pensamentos das personagens. Principalmente essas:

    1-“não foi surpresa” é bem diferente de “não guardei rancor.”

    2-E os outros estão ainda mais zangados do que eu, pois lhe atribuem a sorte que tiveram.

    Aguardando a próxima parte. =D

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